De aceitação, peitos e medos

Eu devia ter menos de cinco anos quando me iniciaram na função materna.

E uns 6 quando me estabeleci nela, de vez. Andando de um lado para o outro com uma boneca loira, eu exercitava as competências para ser mãe. E eu o fazia com alegria e afeto mas, ainda que tivessem me dado essa nenenzinha, e um kit de mamadeira, e uma escovinha para penteá-la; por fora, os comandos eram diferentes: “Estude minha filha. Estude para trabalhar. Trabalhe hein, minha filha. Trabalhe, pra nunca depender de homem nenhum”— dizia minha mãe, para uma menina rodeada de bonecas.

Eu cresci, trabalhei — muito — tive filhos — muitos —  e, em 2015, quando pedi demissão, após 13 anos de muito perrengue e ainda mais conquistas, uma estranha melancolia me invadiu.

Eu não tinha nenhum outro emprego me esperando, nenhum freella, nenhum trabalhinho, nada. Após a conversa informativa, sai do escritório aliviada, leve, mas, quando entrei no carro, antes de ligar o rádio, antes de sequer por a chave na ignição, eu chorei.

Abraçada na direção do automóvel, eu chorava o choro da minha mãe. O choro da mãe dela e de todas as mulheres que, apesar das flexibilidades, do home-office, das avaliaçōes de performance e de todo o esforço em nome da equidade de gênero, não se sentia pertencente. Nem àquele mundo e nem ao que estava por vir.

Eu tinha sido treinada para ser mãe, ensinada a ser uma executiva, mas era mesmo, uma mulher imperfeita, preocupada e cheia de vulnerabilidade.

Quase dois anos depois, e, hoje, escrevo esse texto ainda vulnerável e com dúvidas constantes que vão desde “Essa é a escola certa para meus filhos?” a “Aqui uso vírgula ou ponto e vírgula?” passando por “Por que raios não descongelei o frango ontem a noite?”.

Mas hoje, ao contrário daquele dia, eu não temo mais a vulnerabilidade. Eu não brigo com as imperfeições.

Ainda não consigo desenformar um bolo direito, mas, ao invés de chorar os pedaços quebrados, eu saboreio o recheio.

A imperfeição virou amiga e escolho — cuidadosamente — as minhas batalhas. Ainda brigo contra a flacidez, é verdade. Mas aceitei alguma gordura localizada. Aceitei a roupa suja se acumulando na cesta e, não sem dor, aceito o currículo amarelando na gaveta.

Vivo com conformismo o clichê um-dia-de-cada-vez, mas luto, inconformada, para que minha vulnerabilidade seja aceita. Mais, para que nossas frustrações e confusões, sejam aceitas e amparadas. Não precisamos consertar tudo. Nem o risoto que talhou e nem o peito que caiu. Quem foi que disse que caiu? Afinal de contas, onde está escrito que o quadrante do peito tem que ser aquele e, abaixo caiu – acima subiu? Não. Escolhamos as nossas batalhas e encontremos perfeição naquilo que dizem ser imperfeito.

Me treinaram para ser mãe, me ensinaram a ser executiva mas, resolvi ser mulher; e compartilhar com mulheres a força e a alegria de ser vulnerável, de se sentir tão solitária quanto conectada, de não saber dobrar lençol de elástico, de ter vergonha de falar inglês, de ter medo de mudar, de encarar assim mesmo e de ser, sobretudo, perfeitamente imperfeita. Como só as mulheres sabem ser.

 

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