Sobre o embate

5 fevereiro, 2018
por:

Eu ainda morava em São Paulo, a primeira vez que escutei isso. Conversava com uma amiga, na sala da casa dela, enquanto as crianças brincavam, inquietas. O filho mais velho dela começa a tentar chamar atenção das piores maneiras possíveis. Ela tenta controlar, tenta intervir, sem sucesso. Por fim, ele está berrando e pulando de sofá em sofá numa brincadeira que, juro, irritaria até Dalai Lama. Minha amiga perdeu a compostura, gritou, esperneou e entrou naquele embate pessoal que a gente sabe que não vai dar certo, mas entra mesmo assim, sabe-cumé?

Quando, por fim, ela sentou- se de novo ao meu lado, suspirou e começou a desabafar como aquela criança a tirava do sério. Em algum momento, inclinou-se para mim e sussurrou: “As vezes eu tenho raiva dele. Não é horrível isso, sentir raiva do filho?”

Eu não sabia o que responder. Talvez porque não tivesse assim tanta intimidade com ela, talvez porque não sabia do que ela falava ou, talvez, porque eu sabia exatamente do que ela falava, mas ainda não conseguia admitir.

Eu tive muitos embates como aquele com meus próprios filhos e, em todos eles, termino por sentir-me esvaziada de exaustão.

Ah, o embate. Quantas vezes não me dei conta que uma bronca boba deixava para trás o propósito de educar e virava raiva. Quantas vezes eu me vi diante de um dos meus filhos, com o dedo em riste, totalmente possuída, não pelo desejo de educar e fazê-lo crescer, mas pelo desejo raivoso de vencer. De exercer o meu poder. De ganhar uma disputa, porque afinal, quem manda aqui sou eu. Quantas vezes me vi, tomada de raiva, nesse ponto ínfimo do não retorno, sabendo que nada daquilo vai funcionar, mas me sentindo exaurida de recursos.

Incrível como até o maior amor do mundo pode se perder em disputas cotidianas.

Parar de entrar em em ates fois um objetivo de vida aqui e, aos trancos e barrancos, tenho conseguido.

Hoje, acredito piamente que não há maneira, nenhuma maneira, de exercer algo tão brilhante quanto educar, enquanto somos tomados por algo tão mesquinho quanto a raiva. Nenhuma decisão baseada no desejo de vencer aquela criança, pode ser uma decisão acertada.

Uma noite, depois de ter essa certeza me perseguindo após um dia muito difícil, fui impelida a desculpar-me. Enquanto punha a minha menina para dormir, me peguei falando pra ela: Filha, me desculpe. A briga de hoje, e todas as brigas. Eu vou tentar entender, e você vai tentar também, tá bom? – ela acenou com a cabeça, e eu continuei:

– Me desculpe, filha. Ter gritado, ter sido grosseira e rude. Eu estava cansada. Num dia ruim. Mas eu estou tentando muito, muito, ser a melhor mãe possível pra você.

Ela deu um meio sorriso e, quase dormindo, puxou meu pescoço pra mais perto, dizendo:

-Você é. – Senti meu olho quente e as lágrimas que escorriam. A maternidade é longa e é uma benção. Eu pedia desculpas para ela, mas era comigo que eu falava. Me perdoar, por tantos entraves, era ainda mais importante. Me perdoar por gritar. Por não ter paciência, por arrancar algo da mão dela, por apertar-lhe o braço com força, por dar-lhe nuggets e até por lhe jurar que os girinos seriam felizes após joga-los pelo ralo da pia. Quão duvidosas são nossas escolhas.

Que incrível seguirmos tendo chances, dia após dia, de vencer, não ao filho, nem ao marido, nem a ninguém mais do que a nós mesmas. Nossas sombras e inseguranças, nossa vaidade e nosso orgulho.

Talvez leve anos, uma vida, para ela conseguir dar nome e significado a esse tempo, a esses embates. Não importa. Eu sigo evitando embates e aceitando alegria. Os dias são longos, é verdade, mas os anos seguem sendo curtos e a infância, um sopro. Que possamos viver com alegria, esse sopro precioso dos nossos grandes tesouros.

 

Comente no Facebook

Comente no blog

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts relacionados com esta matéria