Sobre fardo

17 novembro, 2017
por:

Por Ana Coutinho

 

Eu assistia uma amiga ao telefone com o marido, e eles começaram a se desentender sobre uma quarta-feira.

– Mas custa, você ficar com eles só na quarta à tarde? – Ela dizia. Ele, provavelmente dizia que não daria e ela seguia:

-Eu fico todos os dias com as crianças, voce não pode uma quarta? – Então, sábado de manhã? – Não é possível, você não tem ideia de quanto é cansativo ficar com eles! – Ah grande coisa, ficar duas horas por dia….

A coisa seguiu daí pra pior, quando comecei a refletir: Será que eu também fazia isso? Já tive conversas similares com meu marido, com quem divido todas as tarefas, mas, claro, a gente sempre acha que com a gente não é tão ruim assim. Que na nossa casa é diferente; mas não tenho convicção. Me sinto junta daquela mãe e de tantas outras que seguem exaustas, tentando aprender a dificílima arte de dividir as tarefas. Tem algum curso superior disso? MBA? Doutorado? Como é difícil!

Não importa tanto as diferenças, aquela questão ali, era também minha e, sobretudo, dos pais dos nossos filhos.

O que aconteceu com a gente? Quando foi que as crianças tornaram-se um fardo? Quando foi que passamos a tratá-las assim, quase que como uma balde, empurrando de um lado para o outro?

Quando foi que perdemos o prazer de estar com elas ou quando foi que nos esquecemos o quanto é rico e um privilégio a possibilidade incrível de estar com os nossos filhos?

Isso deve passar, claro, pelo cansaço. Pela exaustão. Não são as crianças, o fardo.

O peso é da vida. Da roupa pra lavar, do jantar pra ser feito, das noites interrompidas, do excesso de trabalho e das intermináveis demandas dessa fase da vida. O peso de ser, pela primeiríssima vez na sua existência; absolutamente insubstituível. Porque uma amiga que brigou comigo vai achar outra melhor. Aquele emprego que eu saí vai contratar uma funcionária pro meu lugar. Se eu faltar naquele curso talvez nem notem; mas, como mãe, nao me é dada a opçao de faltar. Talvez os pais ainda tenham esse benefício, podem até deixar em branco o seu lugar na certdão de nascimento da criança, mas nós, não.

O peso é a solidão desse lugar. O fardo é o contexto.

A exaustão é desse tempo.

Eles vão crescer e eu vou dormir. Vou ficar horas no instagram, ler meus livros atrasados e encontrar até as inimigas, que dirá as amigas.

Haverá tempo.

Mas o tempo dos nossos filhos, é hoje.

-Eu posso ficar com as crianças na quarta-feira – sugiro à minha amiga, que desligou o telefone desolada. Faço um pic nic no quintal, com todos. Continuo.

Ela diz que parece legal e que quer participar. Mas tem tanta coisa pra fazer.

Sem muita solução naquele momento, sugiro passar as tarefas das roupas para o marido. Lavar, dobrar, guardar.

Porque, se tem algum balde pra empurrar, é o de roupa suja. O resto, vale lembrar, não é o resto. É tesouro mais que precioso.

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