Quando a platéia está vazia

20 outubro, 2017
por:

Por Ana Coutinho

 

Eu sempre achei que a vida tinha mesmo essa coisa de um grande espetáculo. Uma peça teatral. Estrelando, você mesma.

A gente se une a pessoas, que, ora são parte do show, ora assistem à sua performance. De uma maneira ou de outra, precisamos de espectadores. Precisamos que nos vejam, nos enxerguem, chorem conosco ou nos aplaudam. Precisamos que nos reconheçam, humanos.

Talvez por isso, mudar – de estado, de país ou até de cidade – pode ser tão doloroso.

A casa nova, o carro comprado, aqueles produtos incríveis no mercado, mas a platéia está vazia. Seus espectadores mais importantes não vieram pra esse show. Ficaram. E, por mais que peguem um ou outro episódio por skype, o espetáculo passa a ser solitário.

Aqueles eventos bobos de antigamente passam a ecoar na memória. Agora você entende a importância daquele dia que toda a família desceu na garagem pra ver seu carro novo. Ou quando vieram visitar o apartamento em reforma. Ou quando comemos uma pizza pra comemorar meu emprego novo. Era a minha platéia. Lotada, me aplaudindo. Minha platéia nos aniversários, minha platéia na maternidade visitando meu primeiro filho, minha platéia que faltou no trabalho quando a mais velha teve que operar. Minha platéia, mesmo quando o espetáculo era tedioso. Eles estavam lá. Na primeira fila.

Quando nos mudamos, aqui mesmo, nos Estados Unidos, de uma casa pra outra, quis comprar flores e desejei que a minha platéia viesse ver. Participar. Aplaudir ou bocejar, não importa. Mas o teatro parecia vazio.

Aos poucos vou notando novos espectadores, claro. Amigos que são família em suas poltronas, quando nos assistem. Amigos que vêm pra pizza, que querem ver como ficou o quintal e que cantam alto no parabéns das crianças. Amigos que pulam pro palco, sendo também personagens dessa jornada solitária, que é a vida. Migrar envolve reconstruir toda a sua platéia.

É verdade que, às vezes, me escondo na cochia pra chorar as cadeiras vazias. Liguem não, amigos. Eu ouço o aplauso de vocês. Reconheço, com amor inigualável, cada sussurro e suspiro que compartilhamos nesse nosso espetáculo. Mas, tem horas que aquela primeira fila faz falta. Sabe cumé? E as decisões que tomamos dão uma bambeada. Passa.

Passa porque, também, sei que faz parte da vida atuarmos sozinhos. Mesmo quem nunca se mudou e vive com raízes, sente a falta de alguém que não está lá. Porque espectadores também se mudam. Viajam e – olha o absurdo – até morrrem.

Todos nós, protagonistas de nossa jornada, sentimos a dor de um espectador que não está lá. A ausência aguda de uma poltrona vazia. O barulho ensurdecedor do silêncio, bem na hora da piada. Ele não está lá. A piada era boa, mas a cadeira está vazia.

Daqui, da minha cochia, tento respirar e voltar pro palco.

Talvez a vida seja mesmo uma peça de teatro. Mas cabe a nós abrirmos as cortinas, chamarmos o público e virarmos o olhar para aqueles -talvez poucos- que seguem nos assistindo, aqueles que seguem vibrando nas cenas felizes, torcendo nas difíceis, aqueles que também sofrem quando você acerta na trave, aqueles que tentam um coro, e os que se desesperam juntos quando a pia da cozinha entupiu ou quando tem uma goteira e você não sabe nem como fala “encanador” em inglês. É encanador, ou é o moço do telhado?

Alguém na platéia vai te responder. E não tem jeito. Se você olhar só para os assentos vazios, a peça vira um drama. Acertemos o olhar, pelo menos por hoje, e bora abrir as cortinas. O espetáculo continua, diariamente.

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