Quando é hora de soltar a corda

13 julho, 2018
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Eu já vinha pensando nisso há dias, mas hoje tomei a decisão final. A difícil decisão de libertar meus filhos.

Embora as portas da casa sigam trancadas ao anoitecer, embora eles não tenham permissão de ir até o quintal sem me avisar, sinto que é hora de libertá-los – de mim mesma. Da árdua tarefa de me orgulharem. Ah, filhos, que difícil tem sido para nós todos, né? A educação com base no olhar do outro. A educação, nem sempre para vocês, mas para mim. Para que digam, com excessiva admiração, que eu os eduquei bem, que eu fiz um bom trabalho, que eu estou de parabéns.

E como me engole a necessidade de aprovação. Mas a verdade aparece, feito um mamute num quarto apertado, e não posso mais deixar de vê-la. A verdade, pesada e incômoda, é que a vida de vocês não é sobre mim. É sobre vocês mesmos. E que o meu sucesso (o que era isso mesmo?) não se trata de como vocês se saem bem ou mal,  não são os seus cabelos bem penteados, nem o seu sorriso cortez para com os mais velhos.

Que essas virtudes, de saber conviver em sociedade, respeitar os outros e a si mesmo, sejam as suas, para a sua própria inteireza e lisura; e não para sustentar esse troféu enlameado da boa mãe.

Filhos queridos, eu os liberto dos meus medos. Das minhas frustrações, daquilo que para mim foi infortúnio e, como temo que passem pelo mesmo revéz, fechava-lhes a passagem. Cercava essa estrada com os meus sustos e dores. Mas, hoje, quero libertar-lhes.

Também dos meus gostos de desgostos. Não vou lhes guardar daquilo que é meu desagrado. De jiló a Justin Bieber; que vocês experimentem aquilo que possa lhes trazer afeição.

Seguirei lhes protegendo do que pode lhes causar dano. Seja ele qual for. De jiló a Justin Bieber, teremos cautela, mas lembrarei que é sobre você, e não mais sobre mim.

Que descoberta custosa me foi essa. Enxergá-los além do espelho.

Não prometo consistência absoluta, porque a vida as vezes é dessa insensatez que nem sei. E também porque não posso desconsiderar a minha natureza, um tanto controladora e obsessiva.

Mas prometo filhos, prometo exercitar esse olhar, enxergá-los como se apresentam. Não mais olhar para quem eu desejo ser, não mais olhar para quem eu temo que sejam.

Tentaremos, hoje, abrir os olhos e os portões. Tirar os excessos, liberar as passagens e abrir espaço. Soltaremos as cordas, as amarras e nos lançaremos como somos. Não há garantias, eu sei. Mas, ainda que haja dores, vergonhas e temores; a vida é melhor quando se é livre.

 

Por Ana Coutinho

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