O clube das que erram

27 julho, 2017
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Eu estava no escritório, sentada na minha mesa de trabalho, quando um colega liga: 

-Ana, a gente tinha uma reunião agora, você não vai entrar? – eu tomo um susto. Tínhamos? Não tem nada na minha agenda, penso, já me endireitando na cadeira.

-Estou te esperando aqui na sala 2 – ele continua, muito seguro.

-Desculpe, acho que me atrapalhei; estou indo – aviso, enquanto fecho o computador e corro para a conversa.

Apresso o passo para a sala já me acusando: Não acredito, que desorganizada! Como não marquei na agenda, eu achei que era amanhã!

Chego esbaforida, me desculpando, mas fazemos a reuniao sem maiores problemas. Horas depois, já de volta na minha mesa, o mesmo cara me liga:

-Ana, a reuniao era amanhã; agora que vi que passei o dia todo no calendário errado, acredita? Liguei pra me desculpar.

-Ahhh, eu achava que era amahã, sabia? – respondo, com a descontração do alívio.

-Por que você não me falou?—-Então… É que quando vejo que tem um erro no ar, sempre pego pra mim – falei, rindo. Ao que ele me responde:

-Quer dizer que quando eu precisar por a culpa em alguém…

-Pode contar comigo – eu completo, as gargalhadas. No final, ele avisa:

-Ó, não espalha isso muito não; tá cheio de gente querendo achar culpados nessa empresa.

 A gente ri e desliga; mas, mesmo após anos dessa  conversa fugaz, as palavras não me saem da cabeça.

 Sou dessas, que sempre acha que a culpa é minha.

Sempre penso que não anotei direito, que não expliquei direito, que não olhei com atenção, que não falei com clareza.

“Fui eu.” Digo, sem nenhum traço de vergonha.

Em conversas densas, sempre saio errada.

“Porque falei tanto?” Me pergunto. Por outro lado, quando participo calada, passo longas horas me martirizando: “Por que não falei nada?!? Devia ter dito! Eu sabia aquilo, por que não falei?” É um ciclo sem fim.

Erros em cumprimentos é a minha especialidade: sempre dou dois beijos quando a pessoa ia dar um – e fico com a cara no ar. Também estendo a mão quando a pessoa ia dar um abraço e tendo a abraçar quem nem ia me dar a mão. Sou especialista em ficar no meio do caminho: “Ups, é, ah, hehe” e, claro, em responder a acenos que não eram dirigidos a mim. “Ai, desculpe” coço a cabeça quando noto.

Sou dessas, que não se envergonham de pedir desculpas e não tenho medo de assumir erros. Talvez porque, no fundo, eles não me preocupem tanto. Erro. Me atrapalho e sei que não estou sozinha. Sentir-se culpada parece ser uma habilidade comum às mulheres da minha geração. Existe praticamente  um clube de mulheres atrapalhadas que vivem errando. Um pouco por leseira, um pouco porque tentam demais.

 Mas, sabe o que? A culpa pesa mais quando é velada. Assumi-la, é também uma forma de aliviar o peso.

Além do que, sabemos todas que, só erra quem tenta. 

Se você é das que erram, orgulhe-se. Certeza que você também é das que tentam. Tentam fazer brigadeiro, camarão, carne assada. Tentam fazer mestrado, tentam fazer marmita, tentam correr 5k, tentam mudar de casa, de cidade, tentam vender tudo e mudar de país. Tentam trabalhar e tentam não trabalhar – sem saber o trabalho que dá.

Se você está no clube das que erram, bem vinda. Se você sabe pedir desculpas, celebre. Você tem a rara habilidade de encerrar uma conversa chata e abrir espaço para o que interessa. Pegue a culpa e pegue o brigadeiro. Existe uma multidão de chatos cheios de certezas certíssimas se entupindo de rúcula. No clube das que erram temos gafe, mas temos gargalhadas. Temos muitos tropeços, mas sempre tem alguém que vai te ajudar a levantar.  Porque a gente não quer competir, brigar, reclamar. Me dá a culpa aê, mas aumenta a música. No clube das que erram, a gente pode dançar mal, fora do ritmo e desengonçada. Mas é muito melhor do que ficar sentada na cadeira.

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