O atentado

15 dezembro, 2017
por:

Eu admiro os muito estudiosos, admiro os médicos sem fronteiras e admiro os professores; especialmente os do ensino público. Admiro enfermeiros e as mães de muitos, mas, sobretudo, admiro um tipo muito específico de pessoa, exemplar raríssimo, encontrado em grandes centros na proporção do mico-leão-dourado (se é que ainda existe), são os que saem sem celular.

Todo mundo conhece alguém assim. Os que saem sem celular e ficam bem. Esses que não notam. “Ah é, esqueci” dizem com estranha tranquilidade. Esses marcianos, cuja última olhada no Whattsup foi segunda, às 14:53. Você conhece alguém assim.

Não se importam com as mensagens, os ETs. A internê quebrando de tanto recado que cai, e o indivíduo escolhendo mamão no hortifruti. A filha chamando a polícia, as amigas achando que foi sequestro, o marido pensando se foi desmaio e a pessoa procurando a chave na bolsa, displicentemente resolve parar pra olhar uma vitrine, como se não estivesse sendo de-ses-pe-ra-da-men-te procurada. Genuinamente não se importa.

Não tem a tensão-pré-fotografia dos mortais que, a cada cena florida, a cada luz boa, saca o bichinho pra registrar o momento. Não tem o stress pós mensagem, a cada vez que pisca um recado de amigo, inimigo ou de um absoluto desconhecido, que faz parte de um mesmo grupo que você e tem uma dúvida que você-sabe-responder. Sartre não conheceu o iphone. O inferno está na mensagem que você sabe a resposta. “Agora não”; a você pensa, por dois minutos. Talvez um. Se fosse essa amiga tranquila, conseguiria nem notar, e seguiria montando o quebra-cabeça com o filhote. Só que não, você é uma pessoa comum e tem um impulso incontrolável de responder. Ainda pensa de novo que não, deixa eu continuar misturando o ovo na receita; mas eis que uma urticária aparece, você começa a se coçar e, pronto, quando vê, acabou-se a brincadeira da criança, queimou o feijão ou passou o dia, no-ce-lu-lar. É ou não é um atentado esse troço? Um atentado a tudo que se perde enquanto olhamos para ele.

Um atentando ao céu azul que não vimos, um atentando ao pulo da criança que insistia: “mãe, olha; mãe, olha”, mas a gente tava lendo o barraco no grupo dos vizinhos, e não notamos a perda.

É um atentado à historia preciosa que o marido ia contar, um atentado àquela confissão que a esposa tentou fazer, um atentado ao papo que seu pai tentou puxar, um atentado ao ipê florido, aquele, que passou quando você via um jardim – pelo instagram.

O celular é um atentando à presença, o maior tesouro da modernidade.

Estar presente virou ouro, pedra rara e bruta, que pouco conseguimos.

Eu invejo os displiscentes esquecidos, porque, talvez, eles tenham um pouco mais, as coisas no seu lugar. Pode ser uma ilusão, mas tenho cá pra mim que esses desatrados, que nos matam esquecendo de olhar para o celular, são os poucos que vêem a vida sem filtro; há uma beleza especial nas cores límpidas e na cara lavada.

Os esquecidos, esses danados, sabem onde por o olhar.  Esquecem para lembrar.

Um brinde a eles, aos médicos sem fronteiras, e a nós, pobres mortais; que, pelo menos hoje, vamos desligar esse atentado, e erguer o olhar. Bora?

 

Por Ana Coutinho

Comente no Facebook

Comente no blog

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts relacionados com esta matéria