Como são as escolas públicas americanas?

22 setembro, 2017
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As escolas públicas aqui, na Flórida, são totalmente gratuitas para crianças a partir dos cinco anos.

Não pagar nada pela escola é excelente, mas o funcionamento e a educação em si, são completamente diferentes das que vivíamos no Brasil, e isso foi uma das minhas maiores dificuldades.

As regras são muitas e, inicialmente, pouco claras. Nós chegamos no meio do ano letivo e pensa numa coisa perdida.

Não sabíamos absolutamente nada e tínhamos duas crianças entre mais de 1200 alunos, a coisa tem um ritmo próprio, sem muita explicação e, para mim, com nenhum acolhimento.

As crianças podem almoçar na escola, uma comida bem americana (como por exemplo pizza às segundas e cachorro-quente às terças, seguido de cheeseburger e demais “especiarias” nos outros dias) e, então, optamos por mandar o almoço delas todo santo dia.

Uma cantina de escola americana

Demorei a entender porque elas voltavam sem ter comido, já que as explicações pareciam estapafúrdias: “Não gosto da comida gelada, mamãe”. “Não achei talher, pai”. “Não consegui abrir o potee” e, assim, elas seguiam explicando.

Como não aquecem a comida da menina?? Como não ajudam a abrir a porcaria do tupperware? Como não dão uma colher pra criança? Eu me perguntava enquanto tentava priorizar a lista de mil dúvidas para a professora. Por fim, aprendi que aqui é assim: ninguém vai aquecer a comida do seu filho – para isso existem as marmitas térmicas, o certo é você mandar talher e, se ele não consegui abrir o pote, levanta a mão no refeitório, com uns cem alunos, que algum voluntário deve aparecer – amém.

Sim, as crianças aqui são excessivamente independentes e isso foi um choque.

Por outro lado, a rotina da escola não é nada solta. As crianças andam numa fila indiana impecável, nada de conversa fora de hora e o lema “keep you hands for yourself” é soberano. Ainda penso ser assustador essa coisa de não poder se tocar, de achar um abraço ou um beijo coisa de outro mundo, mas é assim que a banda toca. E, sabe o quê? As crianças dançam ao som dessa banda. De alguma maneira eles se adaptam, entendem quando rola uma exceção, quando aquilo é aquilo mesmo e vão se sentindo seguras, caminham com firmeza e alegria sobre os quadradados laranjas do corredor.

Sala de descompressão da Gator Run (em Weston)

Eu é que demorei mais. Também não entendia a autonomia da professora. Embora o programa/conteúdo, seja o mesmo para todas as escolas do seu distrito, a professora tem autonomia total para tudo. Desde a decoração da sala, onde algumas usam cadeiras, outras bolas e outras bancos, até algumas festas que umas professoras optam por fazer e outras não.

De maneira geral, o que importa é o conteúdo. Não vou me esquecer nunca da primeira reunião que tive aqui, com a professora da minha mais velha: “O critério de aprovação é que ela saiba 19 letras das 26 do alfabeto, identificando-as com os sons corretos – deixa eu te mostrar aqui onde ela se encaixa, nessa linha, tá vendo? Ela deveria ser B e é N (ou qualquer coisa assim), precisa avançar nessa linha até aqui e isso inclui um nível de leitura XYX, etc e etc”.

Eu escutava aquilo entre o susto e a tonteira, sem saber direito o que pensar. Na escolinha afeuosa de São Paulo, as reuniōes eram sobre o comportamento, a interação com as outras crianças, a segurança ou insegurança com novidades, e isso era tudo o que importava para uma menina de 4 ou 5 anos.

Aqui não. Aqui, o que importa é saber 19 letras do alfabeto. E os sons, claro.

Com o tempo fui entendendo e me adaptando. É um pouco da cultura do país, um pouco da forma que encontraram para lidar com um número enorme de alunos, mantendo a qualidade e o padrão de ensino. Padronizando, afinal.

A gente vai ajustando um pouco aqui, aperta ali, revê isso em casa, alarga acolá e remenda aqui.

No final das contas, é uma maneira de ampliar o olhar, expandir a cabeça e abrir o coração também.

Depois da adaptação inicial, vejo que as crianças estão tão fortalecidas. Se movimentam com facilidade naquela escola gigante, aprenderam as regras, as salas, os nomes de todo mundo. Aprenderam a gostar daqui, a abrir potes e, claro, a falar sem nenhum sotaque, as tais 26 letras do alfabeto.

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